História do bairro

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Floresta: Um bairro de operários, condes, comendadores e poetas

Criada como moradia para os operários que construíram BH, o bairro
criou fama e virou a casa de grandes nomes do país

igreja

O bairro Floresta nasceu como subúrbio da cidade, ainda na primeira década de Belo Horizonte, sendo um dos primeiros locais de moradia dos operários que trabalhavam na construção da capital. Inicialmente foram construídas moradias simples, dando lugar tempos depois a uma série de casarões e palacetes, dentre eles o famoso palacete do Conde de Santa Marinha, construído em 1896, que tornou-se a primeira residência fora dos limites da avenida do Contorno. Esse palacete sequer chegou a ser habitado, tendo seu dono falecido no Rio de Janeiro enquanto a família se preparava para viver na nova capital.

O bairro era formado inicialmente por chácaras que, segundo historiadores, foram responsáveis pelo abastecimento de hortifrutigranjeiros da capital recém inaugurada. Os vestígios da primeira forma de ocupação ainda existem. A área da praça comendador Negrão é um exemplo. Essa praça está localizada no local onde existia a chácara dessa família que se uniu à família Lima, gerando futuramente vários nomes importantes na nossa política, como ex-prefeito de Belo Horizonte, Otacílio Negrão de Lima. A sede da propriedade, na rua Leonídia Leite, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais e continua preservada.

Casa do Conde2

Casa do Conde

A região abrigou também algumas personalidades ilustres como os poetas Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, e até o compositor carioca Noel Rosa, que na ocasião veio passar uma temporada em Belo Horizonte em busca da cura da tuberculose. Outro compositor não menos importante, Rômulo Paes, cantou o bairro em versos: “Minha vida é esta, subir Bahia, descer Floresta. Antes assim, que descer Bahia, subir Bonfim”

Por sua proximidade com o Centro, o bairro cresceu rapidamente, surgindo novas e modernas construções. Por volta do ano de 1930, o comércio começou a se desenvolver, principalmente na região entre as avenidas do Contorno e Assis Chateaubriand. No passado, o bairro também ficou conhecido pelas ruas tradicionais como a Itajubá que, durante muito tempo, foi um dos pontos mais famosos e movimentados da capital, conhecida pela animação de seus bares e bailes de carnaval, e por ser também a única rua que atravessava toda a avenida do Contorno sem mudar de nome.

Culturalmente, o bairro também é destaque. Abrigou o primeiro e mais importante canal de TV do estado na época, a TV Itacolomi, fundada pelo pioneiro da TV no Brasil, Assis Chateaubriand. Hoje, o bairro atrai inúmeras manifestações artísticas que ganham destaque no Teatro Alterosa, na praça Comendador Negrão, no Museu dos Pracinhas, que detém um grande acervo da Segunda Guerra Mundial; na sede do Giramundo, que abriga uma escola de teatro de bonecos e um museu há sete anos, responsáveis pelo maior acervo de marionetes do Brasil; além da Casa do Conde, palco de grandes shows; o Museu de Artes e Ofícios, a Praça da Estação, entre outros.

A vida é esta: descer Bahia e subir Floresta;
antes assim, que descer Bahia e subir Bonfim…

Viaduto Santa Tereza

Viaduto Santa Tereza

Os versos do saudoso e irreverente compositor e radialista Rômulo Paes foram apenas uma das várias homenagens que a Floresta recebeu ao longo da história. E não poderia ser de outra forma. O bairro foi moradia de, por exemplo, Pedro Nava, médico e escritor, participante da geração modernista de Belo Horizonte e autor de seis livros, considerados um marco no memorialismo brasileiro. Mas o morador mais ilustre do bairro foi Carlos Drummond de Andrade. Aqui, ele chegou com a família, no início da década de 1920, quando foi morar em uma casa ao lado da Igreja Nossa Senhora das Dores, na rua Silva Jardim. A casa, infelizmente, não existe mais, mas foi inspiração para um de seus poemas: “A casa sem Raiz”, em que o poema questionava a falta de história da casa, em meio às lembranças de sua Itabira.

 “A casa não é mais de guarda-mor ou coronel./ Não é mais o Sobrado./ E já não é azul./ É uma casa entre outras./ O diminutivo alpendre/ Onde oleoso pintor pintou o pescador/ Pescando peixes improváveis./ A casa tem degraus de mármore/ Mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,/ Que repercute no Pará./ Os tambores do clã./ A casa é em outra cidade,/ Em diverso planeta onde somos o quê?/ Numerais moradores./…/ Aqui ninguém bate palmas./ Toca-se campainha./ As mãos batiam palmas diferentes./ A batida era alegre ou dramática/ Ou suplicante ou serena./ A campainha emite um timbre sem história. Silva Jardim, ou silvo em mim?”.

Carlos Drummond viveu no bairro entre os anos de 1920 e 1934. Neste período, foi personagem de outras histórias curiosas. Uma delas conta que, um dia, quando voltava do trabalho, pelo viaduto Santa Tereza, como sempre escrevendo, e resolveu subir no alto do arco, onde teria mais tranquilidade para elaborar suas poesias. Nesse dia, Carlos Drummond recebeu voz de prisão, mas lá de cima respondeu ao guarda: “se quiser me prender vai ter que vir até aqui”. O guarda tirou os sapatos, as meias e tentou subir no arco, mas como não conseguiu, foi embora.  Assim, como dizem que fica encantado quem passa debaixo do Arco-íris, coube ao arco-íris figurativo do viaduto encantar o poeta. E a tantos outros escritores famosos que vieram depois dele — de Fernando Sabino e Otto Lara Resende a Paulo Mendes Campos, Murilo Rubião e Alphonsus Guimarães Filho.